Protocolamos uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) para apurar os benefícios sociais recebidos pela esposa do vereador de Acajutiba Leonardo Carvalho Souza, o "Leo Motorista" (PSD). Os documentos públicos reunidos na denúncia mostram que Iasmine da Paixão dos Santos, casada com o parlamentar, segue cadastrada em programas federais para famílias em situação de pobreza. Ela recebe o Novo Bolsa Família sem interrupção desde janeiro de 2024. São 31 parcelas até junho de 2026, que somam R$ 22.960,00. Em março de 2026, ela também recebeu um vale do programa Gás do Povo.

Servidora da Prefeitura, esposa de vereador

Segundo as folhas de pagamento publicadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), Iasmine trabalha com salário na Prefeitura de Acajutiba durante todo esse período. Em 2024, foi Assistente Administrativa na Secretaria de Assistência Social, no CRAS, que é justamente o setor responsável pelo Cadastro Único. Em 2025 e 2026, aparece como Facilitadora de Oficina e Auxiliar de Classe, com salário bruto de R$ 1.756,08 em 2026.

Leonardo trabalhou como motorista da Prefeitura até 2024. Desde janeiro de 2025, recebe o subsídio de vereador, que nas folhas do TCM-BA para a mesma Câmara e a mesma legislatura está em torno de R$ 9.900,00 por mês.

O casamento entre os dois é público. No perfil em rede social em que se apresenta como vereador, Leonardo se diz "Pai de 2 filhos" e "Esposo de" Iasmine, com link para o perfil dela. A denúncia aponta uma contradição: na ficha de candidatura entregue à Justiça Eleitoral, ele aparece como "solteiro" e com a profissão de "agricultor".

Renda incompatível com os programas

O ponto central da denúncia é que a renda do casal não é compatível com os programas. O Bolsa Família exige renda de até R$ 218 por pessoa. Só o salário de Iasmine, dividido pelas três pessoas que ela mesma informou ao cadastro, já dá cerca de R$ 585 por pessoa, quase o triplo do limite. Somando o subsídio de vereador, a renda da família passa de R$ 11.600 por mês, ou mais de R$ 3.800 por pessoa.

OS NÚMEROS

• 31 parcelas do Bolsa Família, que somam R$ 22.960,00

• Limite do Bolsa Família: R$ 218 por pessoa

• Renda estimada da família: mais de R$ 3.800 por pessoa

• Cerca de 17 vezes o limite do Bolsa Família e mais de 4 vezes o teto do Gás do Povo

Mesmo padrão já denunciado

O caso repete o padrão que denunciamos em agosto sobre outro vereador da mesma Câmara, Anselmo Oliveira dos Santos (leia aqui). Em ambos, o vereador aparece como "solteiro" na Justiça Eleitoral e a esposa trabalha com salário na Prefeitura, mas continua recebendo benefícios de extrema pobreza. Por isso, pedimos que os dois casos sejam investigados juntos e que o Cadastro Único do município passe por uma revisão completa.

O que pedimos ao MPF

  • Abrir um procedimento de investigação;
  • Pedir à Caixa e ao Ministério do Desenvolvimento Social o histórico completo do Cadastro Único da família desde 2023, com a renda e o número de pessoas declarados em cada atualização;
  • Pedir à Prefeitura e à Câmara as folhas de pagamento completas do casal;
  • Confirmar o casamento ou união estável e os dois filhos que o vereador declara publicamente;
  • Esclarecer por que ele se declarou "solteiro" à Justiça Eleitoral;
  • Avaliar a suspensão imediata dos benefícios e, se a irregularidade for confirmada, cobrar a devolução dos valores;
  • Verificar se houve falha ou omissão da gestão municipal, que manteve o benefício por 31 meses seguidos sem nenhuma revisão;
  • Enviar ao Ministério Público da Bahia e ao TCM-BA o que não for de competência federal.

Os documentos que fundamentam a denúncia são públicos. Eles foram extraídos do TCM-BA, do Portal da Transparência do Governo Federal, do Tribunal Superior Eleitoral e das redes sociais do próprio vereador.